30 de jan. de 2011

Karina Revistada




“Nunca mais me dêem um papel em branco, nunca, nunca mais me dêem um papel em



"Nunca mais me dêem um papel em branco, nunca, nunca mais me dêem um papel em branco”

Era apenas isso que escrevia e era o que estava escrito.

E Karina será revistada em sua queda, e não na sua trajetória, modo que sempre analisamos a todos os seres humanos. A física diria que o destino da queda é descrito na sua trajetória, mas, involuntariamente, somos seres humanos...

“Salvem os Frascos e os Comprimidos!” Gritava.

Era o meu ultimo dia nessa cadeira. Chega de pessoas, deveres, perrengues , pessoas querendo de volta carros, dinheiro, necessidades, pessoas querendo muitas coisas, o ultimo dia queria que fosse especial, dedicaria um pouco de atenção, mas queria realmente me envolver com algum caso. Não poderia estar mais interessado, o apartamento foi fechado e a corrida de parentes querendo as coisas começa a acontecer. Tenho medo de apenas guardar valores para os outros, penso alto, muitos tapas nas costas, pessoas querendo me chamar para beber, mas eu vou embora, não ligo, outro dia eu volto, mas hoje, quero ir pra casa, vou ouvir a ultima pessoa pela ultima vez, fechar a pasta e ir embora.O primeiro chamado foi do sindico, que ouviu uma senhora gritando, não sei a onde e nem com quem, ele não me relatou, apenas nos acionou com imprecisão.

Geralmente eu daria um coro se entrasse assim desse jeito, mas deixei o rapaz entrar

Um pouco mais alto que um suspiro ou um murmúrio, assim se deu a sua escrita. Era ela, ainda deitada em um corredor, porque tudo era um corredor, tudo no final tem uma porta a qualquer lugar que olha e longo, muito longo, era esse outro corredor, mas pensava, que se esticasse as pernas, poderia alcançá-lo em toda a sua extensão – “Mas não era porque o corredor é curto” – Corrige-se – “É porque eu tenho as pernas muito, mas muito longas”...Outros viriam, mas era muito, mas muito divagar, e ela nem ligava para os dois dentes que cuspira, ela tinha vergonha dos pés.

Pouca luz havia nela e no corredor, mas aqui distante estava a sua mente, vazia pros outros, mas cheia de si, era pouca ou escassa a luz de uma consciência sadia, como uma carne cheia de nervos era ela, cheia de nervos, cheia de dores no chão, arruinada, esgueirava-se entre a sujeira e os cacos, que era a junção da varanda, assim como um nervo junta um pedaço de carne era a “ruína” onde seu corpo iria fatalmente pousar, pois repouso era para pombos – Uma ruína, uma coisa desabitada Maia perdida no mato. Um quarto. E a esgueira era entre ele e uma varanda fechada, quebradiça e enferrujada, para o que poderíamos de chamar de área. Cortava-se do que muitos pensavam que era vidro, mas ela chamava de dignidade ou consciência. Era cheia de nervos, dores, cascos, cacos e vidros pelo chão. Hora era chão, hora era minuto e muito tempo era um piscar. Não conseguia andar não sabia o motivo, apenas tinha caído esquecido de como – andar e cair - e em queda via lentamente as coisas.

- Foi engraçado como eu conheci essa garota – Dizia enquanto colocava um band-aid em seu joelho – Era uma menina normal, como a minha filha ou a sua, como quando alguém nunca percebe que a loucura pode bater ou se instaurar em uma mente, assim ela chegou aqui, era ma mulher como outra qualquer...

- Eu acho que você se prende muito a pacientes.

- Ela lembra a minha mãe, lembra muito a minha mãe, não sei porque, ela não se parece nem um pouco com a minha mãe. Não é porque tenho uma pele escura, mas lembro de coisas que minha mãe fazia por mim, lembro de situações que a gente passava e de coisas que a gente vivia e volta e meia me pergunto: O quanto eu torturei a minha mãe? O quanto ela foi e voltou dessa divisa? Como foi o nível para quase deixar louca a minha mãe? Mas a gente sempre se falou e sempre se reencontrou de novo em nossas buscas, em nossas reclamações.Ainda mais depois que eu encontrei esse papel

(Uma folha de papel toda rabiscada dizendo “Nunca mais me dêem uma folha de papel em branco”)

- Ela reclamava antes nas terapias em grupo, antes ela falava, ela conversava, ela era uma mulher dinâmica aqui dentro, ela tinha noção que vinha para um repouso e sabia que poderia voltar a qualquer momento, tinha essa plena certeza de que tudo iria voltar ao normal, mas eu comecei a entrar no universo dela também, estranhamente eu fui entrando por essas arestas insanas que ela foi construindo....

- Mas eu tenho a ficha desse paciente, eu tenho certeza de que não foi só isso. Não é "uma" paciente...

- Eu não conheço a ficha dessa paciente João, eu conheço a VIDA dela toda. Ela apenas teve um colapso nervoso, ela apenas falhou com a sua mente por alguns instantes, ela apenas caiu em uma área estranha da mente, isso pode acontecer com qualquer um. É como um tropeço. Acontece que algum de nós pode tropeçar algum dia, mas não significa que ninguém vá ficar aleijado ela não é louca.

- Inquieto eu fico quando você entra escreve sobre os pacientes, as poucas linhas que você dedica escrevendo sobre, eu fico mais intrigado ainda, o que é...

Arranhavam o chão e o céu e o seu corpo magro e icteroso, era um lagarto a andar no chão, se machucando e cortando-se pela varanda mal varrida, entre as pedras e as lascas do assoalho, e pela marcha, lenta, de outros que vinham atrás ou a frente de si – Não discernia, achava que um corpo só tinha ordem e lógica quando estava de pé e não se arrastando - “O homem só é lógico quando de pé – pensaria em escrever com sangue em alguma parede, isso depois que achasse o dente que faria de caneta.

Podia ouvir a respiração de formigas, não sabia como funcionava a respiração das mesmas, mas entendia que podia ouvir tudo, por tão forte bater a cabeça no chão, com o ouvido colado no piso descascado. Seus movimentos eram lentos e muito dolorosos, como todo o mundo que fugia em câmera super-lenta. Os homens-branco calçados corriam em sua direção, andavam a todo vapor, mas engraçado – Sorria o seu rosto seco sem bochechas – eles andavam muito lentamente, pensou: Estou morrendo. Mas se falasse o que pensou, sairia em uma língua que ninguém entendia, exceto uma criança que morava na rua de baixo que sorria toda a vez que ela falava – “Ei Júlinha, você tem cabelnho de linha de telefone, me empresta um pra eu ligar pra casa pro meu filho” – A mãe tocava a menina na frente como se fosse um carrinho de brinquedo, com medo de que a roubasse. – “Nada pode roubar um filho da presença da mãe, nem a morte” – Assim, dizia a mãe de Julinha, mas ela não ouvia, era uma língua brinquedo apenas usada pelas duas.

Uma paciente em uma maca.

Uma mulher linda. De olhos tão azuis que seu anil fugia as pálpebras e como uma coisa incandescente escapava pelos cílios, grossos, de tão grossos, pareciam postiços e sombrios, veio como o sol e eu... O recém estagiário olhava a entrar a paciente como se fosse uma planta murcha, acariciava os seus cabelos com um cuidado muito extremo e delicado, era como se fossem fibras óticas reluzindo todo o sol, o brilho, ela era como Xanadu, era como uma deusa indiana caída, um anjo do céu que cortou os pulsos ao ter ciúmes de deus. Era apenas um anjo na maca, e ele , com olhos vidrados e apaixonados, tentava suturar um dos pulsos, cortados com uma faca cega.

Atendentes atendem um chamado estranho. Uma mulher velha estava nervosa.

- Senhora, para que possamos ajudar melhor, a senhora precisa ficar mais calma e falar mais calmamente ao telefone...

- é... eu sempre tiro o meu cochilo da tarde, mas com essa mulher gritando no apartamento debaixo, eu não conseguia dormir, eu era um desespero, eu estava calma, me continha, tentava não interfonar para o porteiro, sabe,eu não gosto de dar satisfação....

- tente abreviar senhora, essa é uma linha pública.

- meu filho, é que ela estava gritando e esculhambando ela mesma, ela não falava coisa com coisa, e simplesmente, ela deu um grito mais alto e parou de gritar, quando ela parou de gritar, eu achei muito estranho, e comecei a me preocupar para o que tinha acontecido com ela.

- sim, e daí...

- eu não gosto de me meter na vida dos outros, sabe, eu não invadi a casa dos outros, eu sei que toda a ligação que a gente...

- senhora

- ...faz para a polícia ou ao corpo de bombeiro, fica a marca da ligação ou a gravação até mesmo....

- senhoraaa....

- ...o que a gente fala hoje em dia tudo fica gravado no celular, no telefone público em qualquer lugar que a gente...

- ...putaquepariu...Suspira

- Desculpe meu filho – Susto – O senhor falou alguma coisa?

- não importa o que a senhora fez, eu gostaria de saber a conclusão da sua ida até o apartamento de cima.

- Eu não fiz nada, eu fui pra ver o que era, bom, a porta estava aberta, acho que ela queria ajuda, mas não teria coragem para pedir pra ninguém.

- E a mulher que gritava?

- Ela está caída no chão, tinha uma marca vermelha em volta do carpete, estava tudo ensopado no chão, eu não entendi nada, será que vocês demoram pra vir aqui? A moça é do andar de...

Esse pensamento de milésimos foi uma grande distração a não notar que seu corpo caia no chão, com uma força de vinte pedras grandes e pesadas, mas tarde, até mesmo se cortaria pensando em acusação a monstruosidade que fez ao acusar julinha de sua queda. Como uma cena da Discovery, o seu maxilar bate com muita força no chão, voam dentes, e pequenos grunidos e “crunches” de ossos poderiam ser ouvidos por todos. Karina, como defesa, queria ataca, queria correr, queria morrer, queria se desfazer de tudo e de todos, estou de férias, queria gritar, mas agora, tinha a liberdade nas mãos, era a liberdade em suas mãos que faziam ela, graciosamente, correr na alegria de matar, na alegria de degolar, na alegria de estripar qualquer ser que passasse na sua frente, com o sentido de liberdade, com o sentido de expressar o amor, mas o único que estava na sua frente queria que ela voltasse para um vidro de Frontal. O indivíduo que estava em sua frente queria que ela soubesse que ela era louca, mas ela não era e nem estava tão louca assim, ela era livre, tinha poderes sobre si mesma, era a verdade de ser si, mas caiu, como os que correm para viver, mas tropeçam por viverem a primeira vez, todos tropeçamos na primeira vez em tudo.

- O que mais me impressionava é que haviam apenas seis cores na sua casa. Eram seis cores apenas, isso me assustou, e ela fazia parte delas, das cores...É só isso que eu lembro, há e de uma senhora gritando, com o que e com quem eu não sei... – Tragava o cigarro.

- Porque o senhor fuma tanto?

- Tem que envolver algum tipo de vício para se falar de Karina, não posso dizer assim, falar de Karina é complicado...

- Sabe que não pode mais fumar em departamento?

- te peço desculpa, mas é que eu estou muito nervosa com isso tudo

- nervoso.

- desculpa, eu apago o cigarro e digo “Nervoso”.

- senta, não precisa, pode continuar fumando, eu fumo aqui dentro dessa porra também e fica a vontade.

(Silêncio. Desconforto. O outro ascende um cigarro e o outro ascende outro)

- como a conheceu?

- na rua, andando.

- na rua andando, mas assim tão vago, geralmente não se conhece ninguém na rua assim and...

- ela tava indo pro trabalho?

- não – pensou em dizer “idiota” depois, mas apenas tragou o seu cigarro – Ela trabalhava na rua.

- mulher de vida fácil?

- se ele ouvisse o senhor dizendo isso ia parar nas nuvens.

Era um apartamento sujo, um bairro sujo. Quando se reúne essas duas coisas, isso tudo se torna em um ninho para pessoas medíocres e egoístas, mas a câmera tinha começado a rodar e a rodar e todos os homens e lugares, coisas que se envolveu e coisas que a envolveram entra em cena.

- não tinha motivos pra fazer isso

- sabemos que foi, foi tentativa de suicídio e ela não ta morta.

- ta a onde?

- nós sabemos onde ela está

- onde ela está?

- alterações na fala, é isso mesmo? – traga o cigarro com os olhos fixos em seu interlocutor.

- desculpa, me desculpa é que...

- bom, não parecia se importar enquanto você dormia...

- esperava ela...

- esperava?

- é... estava lá há dias.

- eu sei, agora como tens a chave é que é intrigante, se o porteiro deixou subir é porque você tem a chave é a costumas a sua ia ao apartamento...

- da vitima? Que vitima.

Eu sabia que ela iria tentar correr ou fugir. O pedido de alta tinha sido negado de novo e por protesto, tinha sumido. Estava no seu canto habitual, eu iria encontra-la e eu a encontrei. O avental aberto dela denunciava um brilho metálico entre as mãos, na outra, muito vermelho, seis cores haviam em um cômodo. O amarelo, que era a cor de sua pele e cabelos, vermelho entre suas pernas e pelo cômodo, branco, do cômodo ao avental, a parede em degradê de cinza a preto ao brilho misto vermelho do bisturi, mas o impressionante ressalto eram os seus olhos, azuis como esse dia lindo.

Na outra mão segurava firme um objeto de carne, exprimido. Agora, eu to livre, não preciso mais ir embora, muito eu quis ir, mas não conseguia, agora eu consegui sair. Calma, a gente vai te levar de volta ao quarto, está tudo bem, você não tomou o remédio da manhã como a gente falou, então a gente vai levar você pra enfermaria.

Foda-se não vou pra lugar nenhum. Disse, e tentou rapidamente ir em minha direção, enquanto algo escorria além do vermelho dando uma outra cor ao cômodo, que era uma além do amerelo ou do vermelho-pus. Ela não ia me machucar, estava querendo um abraço, mas empunhava alguma coisa com as duas mãos e eu tenho certeza que não ia, mas lentamente, fui me pondo para trás dela, com medo de que eu estivesse errado. Uma senhora falava no fundo

Era como um vaso fálico que se quebrou em uma cena em que a seriedade do tombo faria com que todos cerrassem os dentes ou até mesmo fechado os olhos. Era uma bonequinha. De louça, mas a louça se partia. A cabeça ficava para baixo, não tinha forças para levanta-la - “Logo chegaram os “inferneiros”, pensava rindo ou ria pensando – Sabia que iria demorar mas mesmo assim sorria lentamente, era tudo muito calmo e lento, poderia sentir o processamento da dor no cérebro, sabia que ela chegaria e já tinha um antídoto preparado para ela em algum lugar do seu corpo. Já tinha feito e acumulado todo o esquema que poderia fazer para se manter focada, a verdade estava entre os seus dedos, expremida, sufocada... Era uma verdade que se libertava, que orgânicamente havia saído do seu corpo, com muita dor e sufoco, mas finalmente havia conseguido tirar ela de si mesma. Era um inferno e um céu dentro de uma real mulher, uma vida real, uma verdade real e um passaporte que estava expremido entre seus dedos, a sua liberdade, não tinha a ver com grades ou estar ali, a sua liberdade estava isenta de tudo e de todos. As prisões acabaram, pensava enquanto tremeluzia a sua roupa em milésimos durante a queda e mesmo quando, pelos braços e pernas que a levantaram, ela sorria, assustando até mesmo os ditos loucos – “Defendam os frascos e os comprimidos” - Gritava Célia, uma senhora amiga para apoiá-la naquela verdade - Ela sorria e deixava o seu corpo naquela lentidão e marasmo que seu corpo habitava e sentia. Era verde e viva a liberdade. A cor da liberdade é verde. Tentou falar para Célia, mas seu maxilar trincou e quase caiu, pois estava praticamente trincado com os dentes da frente.

Há muito, aquela que falavam, foi embora e não voltou mais, se perdeu, e por ali se encontrou, fora a saída de um quarto e a entrada em outro, não havia mais alguém. Se pudesse colocar uma placa de aviso em seu apartamento diria: “Sai de férias”. Mas não tirava férias, não ligava para feriados, no seu corpo se recreavam sempre, mas ela nunca se recriou como deveria, era disforme e obtuso seu andar...

22 de jan. de 2011

DIÁLOGO SOBRE ILUMINAÇÃO





Enquanto Niestévisky caminhava pelo jardim, verificando como estava a saúde física e mental das suas petúnias premiadas, o discípulo se aproxima e pergunta:

Discípulo: Mestre, desculpe interromper, mas estou com dificuldades para meditar e preciso de sua ajuda. Como faço para meditar corretamente?

Niestévisky: Simples, basta ficar parado e não pensar em nada.

Discípulo: Isso eu sei, mas é complicado. Eu já tentei várias vezes, mas quando eu começo a não pensar, logo penso, “consegui, não estou pensando em nada!” E ai já estou pensando em algo, e a meditação vai por água abaixo.

Niestévisky: Bem, você tem que ser paciente, a prática leva a perfeição.

Discípulo: Sim mestre, é isso que estou fazendo, mas confesso que às vezes me dá vontade de desistir. Não existe alguma técnica que me facilite atingir o objetivo?

Niestévisky: Sim, existe, mas é um método muito radical e perigoso, que poderá comprometer a sua mente de maneira irreversível.

Discípulo: Tudo bem, estou disposto a me arriscar. O meu desejo de me conectar com o universo é maior do que qualquer outra coisa.

Niestévisky: Então tudo bem, já que você assume os riscos, eu conto. Se, ao meditar, você não conseguir calar a sua mente, silenciar os seus pensamentos e não pensar em nada, crie em sua casa um lugar especial para meditação.

Discípulo: E como deve ser esse lugar?

Niestévisky: Retire tudo o que houver num quarto, então, quando o quarto estiver vazio, coloque no centro dele uma poltrona confortável. Depois disso, coloque uma cortina grossa na janela, de modo que impossibilite qualquer visão exterior que possa distrair a sua atenção. Melhor ainda se você eliminar completamente a janela, fechando-a com tijolos.

Discípulo: Hum, e fazendo isso poderei meditar com mais facilidade?

Niestévisky: Ainda não, falta o principal.

Discípulo: E o que é?

Niestévisky: Bem, como o seu objetivo ao meditar é não pensar em nada, você deverá colocar na sala um objeto que irá auxiliá-lo muito para alcançar o objetivo.

Discípulo: E o que é? Uma estátua de algum deus, uma relíquia, uma mandala, ou algo assim?

Niestévisky: Quase, instale uma televisão na sala.

Discípulo: Uma televisão?!?!

Niestévisky: Isso mesmo. Depois é só sentar na poltrona e assistir. Garanto que ao ser exposto a odses maciças de televisão, logo você não estará pensando em nada. E não se esqueça, dê preferência aos canais abertos, e aos programas mais populares. Mas cuidado, pode ser uma viajem sem volta. Se você sentir que seu cérebro está começando a escorrer pelos seus ouvidos, desligue o aparelho rapidamente.

Discípulo: Que método estranho...E o senhor já tentou esse método?

Niestévisky: Sim, tentei, mas foi traumático. Tive que lutar contra tentações terríveis.

Discípulo: Por exemplo?

Niestévisky: Bem, comecei a sentir desejos estranhos, vontade de comprar jogos de ferramenta, sanduicheiras elétricas, parafernálias eletrônicas de todos os tipos. Além disso, passei dias sendo atormentado pela lembrança de jingles comerciais e refrões de músicas de quinta categoria. No auge me deu vontade de fazer coisas bizarras como ir para a Disney, comprar um chapéu com orelhas do Mickey e tirar fotos ao lado de um cara vestido de Pateta. Mas eu resisti e superei esses pensamentos. Bem, resumindo, foi assim, depois de alguns dias de amortecimento mental, finalmente atingi a iluminação.

Discípulo: Ah, então o senhor atingiu a iluminação?!?!

Niestévisky: Sim.

Discípulo: E como é?

Niestévisky: É muito bom, a sensação é indescritível. Mas, para ser franco, não me lembro muito bem, já faz muito tempo que ela acabou.

Discípulo: Mas eu pensei que a iluminação fosse algo perpétuo.

Niestévisky: Que nada, eu fiquei iluminado por apenas 6 meses.

Discípulo: E depois desse tempo, o que aconteceu.

Niestévisky: Um dia O Universo mandou um anjo até mim, e ele cortou a iluminação por falta de pagamento.

6 de jan. de 2011

Hashis from Hell


Ela pinçou os meus nervos com hashis. Não tenho outra descrição. Pinçou, catou como se pega um yakisoba, sei lá o nome dessas comidas, nunca soube direito o que era aquela mistura de coisas salgadas e doces, quentes e frias, mas tudo com cheiro de chulé. Pequena, com indiscutíveis traços orientais, cabelos negros lisos ameaçando tocar os ombros brancos, vestida como uma yuppie, andando como uma puta bêbada. Uma mulher de ouro, segundo Borges, com violência nos olhos e suor na palma das mãos.
- Yashedo – disse, com voz de alfazema – Yashedo Nagayashi, mas meus amigos me chamam de Yashi – e sorriu.
Mesmo na semi-escuridão do bar, vi que estava ligeiramente alcoolizada. Seu tailleur abria-se e deixava à mostra uma fina blusa de seda branca, e mamilos acesos como olhos. Olhando para mim, inquisidoramente.
- Ei! Você está me ouvindo?
- Sim?
- Tem mais desse negócio que parece picolé de limão? – apontava a garrafinha de Ice alguma coisa.
- Dizem que isso é bom com vodka – disse, atendendo às suas expectativas de um papo.
- É? Vamos ver se é mesmo? – e sorriu novamente.
Eu estava acostumado ao tipo. Bonita, nova, bem sucedida nos negócios, mas sem tempo para envolvimentos emocionais. Uma trepada com o barman na noite de sábado, e era o suficiente para preencher suas idéias de relacionamento. Uma pena ela ter escolhido o barman errado.
Coloquei a Ice em um copo longo, desses de água, e vodka até o talo. Ela sorriu e bebeu em um só fôlego, para mostrar que podia. Engasgou, tossiu e ficou vermelha de vergonha.
- No próximo eu melhoro.
Coloquei outro copo de Ice.
- E a vodka?
-  Tem certeza de que você é capaz? – e sorri.
-  Claro que sim!
- Então vamos complicar um pouquinho mais. – Bebi uma generosa dose de Stolichnaya no gargalo da garrafa, bochechei e cuspi no seu copo.
Parecia uma criança que vira um truque de mágica. Sorriu, bateu palmas e, um pouco relutante, encostou os lábios no copo. Provou, pareceu gostar, e bebeu tudo, dessa vez sem engasgar.
- Ficou bom, assim. E você, não bebe?
- Não trabalhando.
- E a que horas você sai?
- Depende do movimento...
- Oh, C’mon... São duas da manhã, o bar está vazio... Beba uma comigo.
- Ok. – e abri outra Ice, colocando no copo. Quando peguei a garrafa de vodka, ela tomou de minha mão.
- Não, tem que ser do mesmo jeito! – e encheu a boca de vodka.
Não dei tempo dela colocar no copo. Debrucei-me sobre o balcão e puxei todo o líquido de sua boca. Ela ainda tentou posicionar a língua para o beijo, mas não lhe dei tempo, sugando toda a vodka, e fazendo-a babar sobre a blusa de seda fina.
- Ah... Olha o que você fez! – e soltou uma gargalhada. Sorri também, mais por obrigação do que por vontade. – Que horas fecha essa espelunca?
- Para quê?
- Para a gente sair, dançar um pouco... Você conhece algum lugar legal aqui perto?
- Vários...
- Então?
Pensei várias vezes. Afinal, não faria mal algum. Não para mim.
- Hey, Danilo! Segure as pontas do bar para mim que eu vou sair – disse, pegando minha jaqueta e pulando o balcão, ainda a tempo de ver o Danilo levantando a cabeça da trilha de coca e fazendo um ok com o polegar.
- Uau! Mas você é rápido, hein?
- Nem sempre... Posso ser bem lento quando quero.
- Hmmmm... Esse é o meu tipo de homem! – inclinando-se para me dar um beijo, do qual me esquivei e deixei que acertasse meu rosto. – Para onde vamos? – disse, um pouco sem graça.
- Eu te mostro, venha comigo.
E saímos andando pelas ruas escuras do Centro, na madrugada.

Não demorou para que chegássemos na boate, onde pessoas vestidas de preto se acotovelavam ao som de uma batida constante, e semiluminadas por luzes coloridas que piscavam e me irritavam. Yashi entrou solta na pista, um animal doméstico, um cãozinho no meio da floresta.Os esquisitos góticos (como se os Godos houvessem um dia se vestido assim...) abriam espaço para ela sem notá-la, quase. Afinal, esquisitice ali era requisito necessário para a ambientação, e aquela japinha de tailleur, cabelo solto e olhos revirados pelo álcool não era exatamente a mais esquisita.
Ignorando os seus chamados para que eu dançasse com ela, fui ao bar. Comprei um brandy para mim (não que eu fosse beber), e uma Ice para ela, já que pareceu gostar tanto daquela porcaria.
Achei uma mesa, e nela parei. Pousei meu copo sobre o mármore, e afastei com os pés as cadeiras que estavam entre a mesa e a pista, e acenei para ela com a pequena garrafa.
Eu queria poder dizer que a minha japinha parecia um ninfa flanando por entre os mortais da boate, mas não. Bêbada, ela parecia esquecer que estava em uma pista de dança, tentando se equilibrar nos diminutos scarpins. Quando se lembrava, mexia-se desajeitadamente, esbarrando nos outros e sorrindo para mim.
Não demorou para que ela desistisse daquela pantomima, e viesse até a mesa. Pegou a garrafinha de vodka com limão de minhas mãos e sorriu, passando a língua nos lábios.
- Já está batizada?
- Não.
- Então porque não o faz?
- Estou tomando brandy, querida.
- Então vamos trocar -  e inclinou o corpo para me beijar, a tempo que eu me esquivasse e ela quase caísse, se apoiando na mesa. Pegou meu copo de brandy e virou de uma só vez. Quando olhei, espantado, ela aproximou o rosto e borrifou o uísque em meu rosto. Instintivamente, fechei os olhos.
- Merda... – disse, passando a mão na cara.
- Deixa que eu limpo – e, puxando minha cabeça com as mãos, começou a lamber o meu rosto.
Sua língua estava quente e era macia, deslizando com saliva e bebida pelo meu rosto. Quando chegou em minha boca, invadiu-a rápida e sofregamente, pois esperara por aquele beijo a noite inteira. Decidi fazer o seu jogo, e abri meus lábios para que ela entrasse, já que era o que tanto queria. Deixei minha língua penetrá-la, e libertei os meus instintos.
Quando seus lábios se molharam com a minha saliva, ela tentou um sorriso sufocado por minha língua, mas seus olhos se abriram com espanto e delícia ao olhar para a minha pupila avermelhada.
Minha língua lavou as paredes internas de sua bochecha, e junto com elas os últimos resquícios de pudor e moralismo. Quando toquei o seu palato, senti sua língua tremer, como se expirasse um orgasmo, como fibrila um clitóris ou apertam (como uma mão quente e amiga, já dizia o Rei Lagarto) as mucosas vaginais. Suas mãos exploravam minhas costas, e tocavam meus omoplatas como se procurassem as asas.
Afastou-se de mim em um empurrão, e olhava-me, incrédula, assustada, um misto de nojo e tesão que me fez deixar escorregar um sorriso para o canto de meus lábios.
- Querida... Algum problema? – perguntei, tão sem propósito como o copo de brandy na mesa.
- Você... Não, não... Nada.
Abotoava o tailleur, arrumava os cabelos, qualquer coisa que ocupasse suas nervosas mãos, quando toquei seu queixo e levantei seu olhar em direção ao meu.
Um brilho estranho cobria seus olhos, como se quisesse chorar, mas não me importei. Com a mão fortemente em sua nuca, puxei-a um tanto que contra a sua vontade, de volta para meu rosto. Desta vez não aproximei meus lábios, mas lambi os seus, como um cão. Ela se deixou desfalecer em meus braços, e abriu sua boca em um suspiro semiovalado. Mais uma vez, penetrei em sua boca, dessa vez deixando cair todas as minhas barreiras e libertando ao mesmo tempo o calor e as imagens. Não sei o que ela viu, mas enquanto nossas línguas se tocavam, ela estremeceu mais uma vez e perdeu os sentidos. Suguei ainda mais um pouco de sua energia, e sentei-a à nossa mesa, saindo para ir ao balcão buscar mais uma garrafa de água mineral. Sem gás.
Quando voltei, um biote estava sentado em minha cadeira, murmurando gracinhas para a minha presa semi-acordada. Ora, que se danassem as máscaras.
Bati em seu ombro.
- Saia.
- O quê?
- Saia. Agora! -  e exibi as minhas pupilas vermelhas, com um sorriso.
O rapaz levantou-se cambaleando, quase derrubando a cadeira. Ele não se lembraria disso no dia seguinte, ou alocaria junto às memórias fantásticas causadas pela bebedeira. Mas era divertido fazer isto, sometimes.
Abri a garrafa d’água, e derramei em seu rosto. Ela acordou quase se afogando, ofegante e assustada.
- O que aconteceu?
- Nada, querida, você apenas adormeceu. Vamos para o teu apartamento.
Não precisei usar sequer modular a minha voz. Yashi sorriu e levantou, ainda meio tonta – Vamos.
No táxi, ela encostou a cabeça em meu ombro, e eu evitei de beijá-la novamente, até que chegássemos ao seu apartamento.
Quando chegamos ao seu apartamento, Yashi tirou o tailleur e a blusa de seda fina, chutando os scarpins para um outro canto da sala. Safada, estava acostumada ao sexo esterilizado, higiênico, fácil demais. Fiquei parado sob o portal, com as mãos nos bolsos, observando o local. O apartamento era antigo, daqueles com pé direito duplo e cômodos enormes, com rodapés trabalhados em gesso. Bom, muito bom para ser usado como templo.
- Você não vem?
- Ainda não fui convidado.
- Entra, deixa de bobeira – e a minha japonesinha, de saia e sutiã, apenas, veio buscar-me pela mão.
Ela começou então a tirar minha jaqueta, com o pretexto de aproximar seu rosto para um beijo. Já esquecera, devido à bebida, de sua primeira experiência.
Beijei-a, dessa vez com mais intensidade, sem as barreiras que me impus na boate, enquanto fechava a porta com a sola da bota, em um coice. Enquanto sua energia fluía diretamente de sua garganta para a minha, seus olhos perdiam a cor e os arfejos tornavam-se mais profundos. Semidesfalecida em meus braços, joguei-a na cama, e puxei sua saia. Havia outros vetores de energia a serem explorados...
Puxei sua saia e sua calcinha, revelando seus pêlos pubianos negros, dispostos em um sexo pequeno e magro. Umedecido, seu cheiro tornou minhas pupilas vermelhas como sangue, e arrepiou os pêlos de minhas pernas. Colei meus lábios neste sexo, e, enquanto a minha língua penetrava em seu canal vaginal, eu sugava sua energia pelo chakra mais exposto que o ser humano possui. Ela gozava, tremia, arquejava seu tronco pequeno e dava com o calcanhar em minhas costas.
Sua energia vital fluía diretamente da abertura de seu sexo para meu corpo. Mesmo desmaiada, ela ainda tremia ao toque de minha língua e de meus lábios. Decidi devolver um pouco de sua vitalidade, afinal, não queria perder a minha pequena japinha, cujo pulso já estava fraco e a pele perdendo o calor. Despi-me da calça, e meu membro saltou rígido como o de qualquer mortal faria.
Escolhi a forma masculina para habitar neste mundo não por acaso. O poder concentrado na força, a violação sob forma de carinho, a inoculação energética sob a forma de uma haste; fatores fundamentais para a apreciação do gosto real do ser humano. Mesmo não tendo sexo, nós temos preferências, e indo de encontro ao que sempre acontece com outros (sim, há outros, e eles preferem habitar corpos femininos por se adaptarem melhor à delicadeza. Ou não verem beleza na força), escolhi este corpo forte e peludo, quase um macaco. Mas todos os humanos são macacos, uns mais pelados que outros, apenas.
O corpo pálido e frio largado à cama me chamava como um pentagrama chama seus habitantes, e não o deixei esperando. Toquei a carne de seu sexo com a ponta de meu membro, lubrificando-o e preparando-o para o coito, e não percebi que o céu já havia clareado. Quando penetrei as suas carnes trêmulas, o primeiro raio de sol entrou atrevidamente pela janela, e, ao mesmo tempo em que eu arqueava o corpo para preencher cada espaço de seu ventre, a luz nos tocou e minhas asas rasgaram a fina pela de minhas costas, e se estenderam até o teto do apartamento. No frenético movimento coital humano, um vai e vem sem pausas ou ritmo cadenciado, eu chegava a levantar seu corpo acerca de um metro da cama, segura apenas pelas minhas mãos em seus quadris e minha haste em seu canal. Optei então por gozar sem a emissão de líquido seminal para não deixar nenhuma semente, apenas de energia, e puxei-a até sentir os seus pêlos pubianos tocarem a minha virilha, ao mesmo tempo em que ela era sacudida por um violento espasmo pela torrente de energia que eu devolvia a seu corpo, purificada, imaculada.
Vesti a calça jeans, dei uma última olhada em Yashedo, caída ainda desmaiada na cama, com as pernas abertas, expondo seu sexo ferido e vermelho pelo atrito incomum, catei o resto de minhas roupas e abri a janela.
A cidade lá fora começava a nascer, impulsionada pela luz. Acocorei-me no parapeito, abri as asas e me lancei ao alto, de volta para o meu bar.
O Rio é uma cidade muito estranha mesmo, ninguém ia reparar em um anjo cruzando o firmamento àquela hora da manhã.


São Gonçalo, 29 de dezembro de 2003

17 de set. de 2010

Ariovaldo

ARIOVALDO, neguinho travesso, arisco, 11 anos, bom de bola, magro de fome. Os pais de Ariovaldo não tiveram estudo, coisa que com muito custo o menino teve numa escola municipal. Mas o que Ariovaldo queria na vida não era ser “dotô”, era ser mesmo jogador. Queria ser atacante do Botafogo que nem o Mané Garrincha, de tanto que lhe falava o seu vô Bernardino.
                            Ari, pai de Ariovaldo, não apostava no futebol que o moleque jogava na lama, nas ruas estreitas da favela, fazendo firulas e fazendo fila com os dribles desconcertantes em seus amiguinhos. Ari sonhava com Ariovaldo numa faculdade. A mãe de Ariovaldo, ainda ia mais longe, queria o garoto como engenheiro, para que ele pudesse construir para a família uma casa de verdade. A família do garoto não acreditava em sua habilidade como atacante, de correr e driblar. Mas o tempo passou, Ariovaldo cresceu e sua família não investiu em seu talento como jogador de futebol. Porém, na favela houve quem acreditasse no seu talento de correr e driblar: o tráfico.
                            Ariovaldo saiu da escola no momento em que descobriu um jeito de ganhar muito dinheiro num curto prazo de tempo, numa atividade que quase não exigia seu esforço. Sua mãe, apesar do conforto que Ariovaldo estava dando para sua família com o dinheiro sujo do tráfico, morreu de desgosto por ver o filho arriscando a vida e tirando outras.
                            A sua parte consistia em ser o atravessador para os traficas do asfalto. Ele levava a droga e vendia para os playboys, que revendiam mais caro para outros playboys que não tinham peito de subir o morro atrás do barato. Ariovaldo não era mais Ariovaldo, pela sua estatura e sua magreza de dar dó, era conhecido como Caveirinha.
                            O traficante Caveirinha já não driblava no futebol como fazia Ariovaldo, usava suas firulas e sua velocidade para escapar dos cana. Não dava mais passes para o gol, passava de 5 e de 10.
                            Quando o pipoco comia solto, corria como costumava correr para o ataque, chegava a ver o gol na sua frente para o pontapé que iria desencadear a alegria de milhões de torcedores. Pedalava para se esconder nas sombras quando apontava na esquina a veraneio vascaína. Pulava muros e telhados como nos treinos mais rígidos dos campeonatos. Caveirinha era respeitado tanto na defesa da boca quanto no ataque contra aqueles que invadiam a sua área, ele não tinha pena de entrar de carrinho e cometer faltas perigosíssimas. Tinha raça! Se garantia na porrada, quando pintava treta nos bailes funk da vida e sujava os punhos com o sangue dos irmãos treteiros. Riscava no ar seu punhal, presente de algum Exu do terreiro de mãe Pretinha, e chamava pra briga na capoeira com a ginga de um goleador.
                            Caveirinha foi ganhando nome e posição. Já estava visando um negócio de craque. Mas sua frustração veio quando viu que crack no Rio, não dava IBOPE. Tinha que expandir fronteiras, ganhar a confiança do testa-de-ferro da boca e dos gringos para negociar o crack pro exterior. Aí, sim, quando voltasse para o Brasil depois de se internacionalizar, teria mais crédito e entraria para a seleção do tráfico internacional.
                            Caveirinha abandonou a família e como já estava marcado, foi morar fora do estado. Em São Paulo mexeu com seqüestro, extorsão, armas pesadas, assassinatos e já era muito requisitado na lista do “Procura-se”.
                            Certo dia, o vô Bernardino foi parar num Pronto-Socorro lá no Rio de Janeiro. Estava muito mal, pelo que relatou um de seus primos. O seu avô era o único que em toda sua vida queria vê-lo defendendo a Estrela Solitária com toda a maestria e o talento com que havia nascido. Seu avô sonhava em vê-lo jogar e ser campeão pelo Botafogo!
                            Caveirinha vestiu a camisa do seu clube do coração e largou tudo para encontrar com o seu avô no Hospital no Rio de Janeiro. Mas não esperava ele, que o destino fosse lhe aprontar uma peça. Algum dedo-de-seta avisou pros cana que ele estava indo para o Rio. Foi só chegar na rodoviária que a Polícia, numa ação de contra-ataque, o pegou com a defesa vendida e marcou um golaço: prendeu Caveirinha, que sem reação, apático e abatido perdeu a partida. Enquanto dava o seu depoimento na delegacia, seu avô Bernardino morria sem nem sequer ter sido atendido por causa dos poucos médicos que haviam de plantão. Culpa da greve. Culpa do estado.
                            Condenado por muitos e muitos anos de prisão por tráfico de drogas, seqüestro, assassinato, assalto a mão armada, extorsão, formação de quadrilha, entre muitos outros títulos, não restou opção a Caveirinha: formou com outros detentos um time de futebol na penitenciária de segurança máxima.
                            No chão, com piso de cimento, duro e áspero, diferente da maciez da lama de sua rua em que jogava com seus amigos, ele fazia a festa. Levava a torcida da ala 07 ao delírio. Não tinha tempo ruim, com chuva ou com sol, o atacante fazia gol de falta, de bicicleta, de letra, driblava um, dois, três e levava o goleiro adversário para buscar a bola no fundo da rede.
Na final do primeiro campeonato da penitenciária estadual, todos pararam o que estavam fazendo para assistir ao jogo. Dos detentos até o diretor do presídio. Ala 07 versus ala 12. Foi uma goleada espetacular de 5 a 1 para o time da ala 07, onde o seu craque principal marcou 3 dos 5 gols.
Terminada a partida, ao erguer a humilde taça, feita pelos detentos que trabalhavam na oficina, sentiu descer as lágrimas dos olhos. A torcida agradecida gritava pelo seu nome:
__ Ariovaldo! Ariovaldo! Ariovaldo!...
Do livro de contos Angustiolândia, de Romulo Narducci.         

15 de set. de 2010

A Santa


A primeira coisa que a Santa fez foi encolher e esticar os dedos do pé. Séculos nesta mesma posição, era bom sentir os dedos dormentes formigarem. Daí ela piscou.
Piscou duas vezes e deixou a luz que penetrava na Catedral desenhar os contornos de toda aquela grandiosidade, e da multidão em sua pequenez individual – e em sua unidade semovente, como a barriga de um cachorro.
A igreja estava cheia, dia de Ramos, pessoas agitavam suas folhas de palma e entoavam hinos de louvor para lembrar a entrada do Senhor em Jerusalém.
- Mamãe, a Santa piscou.
- Shhhh!
- Sério, mãe. A Santa piscou. Duas vezes!
- Calabocamenino! Não te trago mais à igreja assim, e nem compro milho para você lá fora.
- Mas mãe...
_ Shhhh! – silenciou o petiz com um beliscão.
“Mas que ela piscou, piscou” – e ficou de olho na Santa.
Lentamente, a vida foi contaminando a pedra. O que era frialdade e estática, começava a se tornar vida e beleza. Cada centímetro de manto pétreo se amassava em tecido, e as mãos adquiriam a textura de pêssegos maduros e peitos pubescentes.
A Santa piscou mais uma vez, e sentiu a fraca brisa que corria pela nave da Catedral (neoclássica, fechada e cheia de ventiladores) em sua pele. Umedeceu ligeiramente os lábios, e olhou diretamente para o menino assustado. Entoou um “oi” mudo com os lábios, e sorriu.
- A SANTA TÁ VIVA!
O padre parou imediatamente de falar, e o silêncio tomou conta da nave, como se todos ali tivessem prendido a respiração naquele exato momento. Menos o menino.
- A Santa tá viva! Ela se mexeu, eu vi! – gritava histérico, apontando para a imagem, agora em cores mais humanas, apesar da pele pálida e cristalina.
Nesse momento, toda a audiência se voltou para a Santa, que sorria, com olhos bondosos.
Imediatamente, o burburinho recomeçou. “Valeimeminhamãedocéu” e “Milagre!” eram ouvidos entre os sussurros. Pessoas se prostravam de joelhos; alguns, mais idosos, choravam ao ver a face da Santa, que sorria bondosamente enquanto dava uma olhada panorâmica pela multidão.
O padre caíra também de joelhos, e entoava palavras desconexas, e deixava que as lagrimas lhe escorressem pelas faces copiosamente.
O barulho aumentava, e mesmo os fiéis mais céticos começavam a cair no chão. Alguém já começava a proclamar um milagre, viúvas uivavam, mocinhas quase arrebentavam seus rosários. De repente, a Santa ergueu seu braço direito, palma da mão pra baixo. O barulho lentamente começou a cessar; ainda se ouvia “Shhh, a Santa vai falar” e alguns “Glórias” ocasionais.
A Santa sorriu novamente, puxou o ar – enquanto todos voltavam novamente à apneia – e soltou o ar, como se testasse a garganta recém-formada em carne. Tentou novamente, engoliu em seco, e parou.
A multidão aflita, o sacerdote se adiantou – já recuperava seu papel de condutor de rebanhos – e verbalizou o desejo de toda aquela gente:
- Diga, minha Santa. Se nós somos dignos de uma revelação, diga agora o que queres a esses fiéis servos de Nosso Senhor.
A Santa então puxou o ar, e disse em um só hausto, em uma voz suave e cristalina, porém com potência suficiente para que todos a ouvissem:

- Eu quero dar.

(continua...)

8 de set. de 2010

Do Homem

Do homem

Deixei passar pela fresta um pouco de luz, mas mesmo assim desliguei toda a minha preocupação com o que pudesse acontecer comigo no exato momento que dei por conta de que me adentrava por um universo feminino, estranho e diferente. Lembro que nessa noite dormia como um anjo, nem se preocupando com a inesperada natureza de um estranho, que até então era. Esta era a sensação que lembrava da primeira vez em que dormi em seu apartamento. Era um misto de medo, insatisfação com o desconhecido, tesão, poder e confesso que conforto também. Tinha sido Carnaval ontem. Estávamos nus e abraçados. Soltos em um lençol que não nos comportava pelo calor. Antes de se declarar presente – o seu perfume – morria entre a cova de suas bochechas e me alardeava, depois durante os dias, por viver pensando em uma mulher que conheci em um dia, em uma rua, em uma praça, lotada vazia de pessoas interessantes, mas antes, ali estava, parecendo me esperar com um Top Abada, dançando um ritimo que deixava o seu corpo mostrar um certo tom de erotismo. Poucos homens hoje em dia se confessam seduzidos ou até mesmo apaixonados. Estive sim, apaixonado por uma transeunte, por uma mulher que eu nem conhecia realmente. Meu coração estava solto em um espaço de tempo e fora, completamente fora de razão. Parecia que a conhecia de séculos e a verdade é que eu me via louco a esperar por ela quase que sempre quando sentia que a perderia. A libido sempre vinha como desculpa e tomava as rédeas do que seria uma pura e simples paixão, nunca a frisei como tal, mas perdia cada vez mais a tal da “intocável razão masculina”. Sentia me vender mais e mais aos seus caprichos de canceriana e sempre perdia a minha autonomia. Ia guardando ela em um fosso, junto com a minha auto estima também. Acho que nenhum homem se apaixona mais. Todos os outros não pensam como eu, mas creio que alguns sim.

Volto de uma praia vazia. Devia ter ido para o sossego da lagoa, mas eu quis apenas ver o movimento da rua ou até mesmo encontra-la, para tomarmos juntos o espumante que comprei para o nosso primeiro reveilon. Guardo uma taça para caso alguém apareça. Ouço fogos, gritos e sons de festejo, mas ainda sim só sou eu, minha garrafa e taça de Champagne. Descalço, de branco, sem abraços ou qualquer tipo de menção honrosa por ter passado por um período de tempo, um ano, um mês sufocado por não conseguir mais dizer volta e fazer voltar. Era apenas mais um ano em que fiquei um pouco mais distraído, mas agora nem tanto, perdi minhas gostosas preocupações. Há muito tempo não pensava só em mim, mas às vezes eu sentia falta de pensar nela, e quase sempre quando isso acontece sinto o abraço de uma forte melancolia que me come longos períodos de lapsos, em que perco fome e sono. Estou tomando anti-depressivos, mas é de vez em quando, quando eu lembro que estou triste... Mas acho que vivo uma vida normal, que infelizmente é agora, não sei, mas todos os outros pensam assim...Menos eu...

O perfume de Viane me completava a sala. Era uma entidade onipresente em minha casa, me tirava a alma e me deixava quase sempre semi-nu Me espreitava ao sair do banho e me lembrava que eu era só no fim do Ano. Não me incomodava mais as suas coisas dispersas e absortas pela sala, desdizendo e destoando com a decoração masculina habitual, não me importava mais os seus vestidos guardados como troféus em meu armário... Era a minha conquista mais austera. A mulher mais bem esculpida e sensualmente feita. Parecia tenaz em meu peito, me sufocando, fazendo-me lembrar que tenho um coração, que tenho alma, saliva, boca, sexo... Apenas voei em meus pensamentos e dexei-me levar pelo falso e enganoso perfume de Viane, que me fendia as portas, escancarava meu peito e me dizia que agora estava só como os outros.

6 de set. de 2010

O catedrático.

Ele me faz ocultar segredos que nem aos pés do oratório devo eu confessar. Mas por inquietude de minh'alma revolveu-me o que se passa nos recônditos da mente e do espírito... e o resguardo, foi desfeito. Devo eu fazer um relato circunstanciado de sua pessoa? Quase isso...Ele era homem distinto e tinha sobriedade no trajar. Lembro-me bem... dos fios de cabelos ruivos, a barba aparada. Uma pele tão alva quanto a cor da camisa. E se quisesse se fazia passar por alemão, mas era apenas um brasileiro descendente. A impressão que eu tinha era que seu andar não escapava a observação das alunas e quando ele parava por alguns segundos, parecia sim pousar para fotos.
Percebi que mantinha o grau da formalidade, por isso o rigor e a polidez o acompanhavam. Empregava termos inusuais, mas não tinha um discurso pretencioso.
Lecionava filosofia. E fora de sala de aula fazia seus comentários sobre o movimento da vida, do ser, da essência do ser...sua linha de estudo estava entrelaçada em Heidegger. Suas discussões também envolviam Nietzsche, Sartre...Não escondia seu encantamento pela literatura alemã apreciava Schiller, Goethe e revelava-se um admirador da poesia de Rainer Rilke, poeta que compartilhou um amor louco pela Salomé, a mesma que Wagner e Nietzsche, amaram.
Em uma dessas conversas, fora de sala de aula, nos pegamos sem reservas a compartilhar nossos gostos por literaturas. E fui eu quem disse:
_Professor, adoro Leminski e Clarice Lispector. Sempre que posso, vou a um sarau de poesias. Sou a amante do vinho, do queijo e da poesia! E ele me sorriu.
Disse-me que tinha um ciclo de estudos com alguns autores de literatura, vaidosamente mencionou sua participação como escritor.
Quando terminei o curso de filosofia, trocamos e-mails e números de telefones. Ele me convidou para o lançamento de seu terceiro livro em parceria com outros autores. Cogitei...Talvez não o encontrasse no tumulto, pois ele ia pousar para as fotos, fazer suas dedicatórias, dar seus autógrafos e entrevistas. Não fui ao seu encontro. A chuva forte me prendeu em casa. Apoiei-me nesse pretexto. Talvez eu me acovardava, talvez eu adiasse o que estava por vir. E logo nos vimos no corredor da faculdade, entre uma sala e outra...a relação professor e aluna se perdeu e deu lugar a uma afinidade.
Chamava-me para ir até a porta da sala, no término de suas aulas, entre uma aula e outra, nos intervalos. Conversávamos sobre assuntos diversos, sempre me encantando com livros de presente. É...eu me envolvia. Nós nos envolvíamos. Até que o primeiro encontro foi sugerido feito convite quando me pegou a mão. E fui eu quem disse, nada acanhada com sorriso nos lábios:
_Professor, por que sempre me convida para lançamentos de livros? E não me convida para tomarmos um vinho?
(Risos) E ele respondeu:
_É verdade. E você, nunca aparece nos lançamentos! Podemos ir ao calçadão assistir ao Encontro dos poetas e logo depois...
_ E logo depois?
(Risos)
_Então, aceita tomar um bom vinho comigo?
Neste momento se lhes tateassem as maçãs do rosto, sentiriam como elas estavam quentes. Suas feições de alemão se misturavam em um rosto ruborizado, ele não soube desviar seu olhar. O que refletiu também em mim porque apesar do meu jeito falante, disfarcei a tal timidez que às vezes me atrapalhava. Sim. Pensei por um instante na insinuação que fiz. Não sei se cheguei a causar um eventual constrangimento. Teria sido somente impressão minha?
Minha ousadia havia despertado mais a vontade de estarmos juntos. Vontade muito maior do que antes e esse encontro, existiu. Esses encontros foram se repetindo...Paixão?!Fetiche de aluna e professor.
Certa vez...
Tocou-me às pontas dos dedos lentamente...É assim que se toca uma mulher como você!Fitando-me com olhos excitados, fiz cair todo vestuário... Duas taças de sorvete de creme derretiam-se na cabeceira da cama, nos inquietávamos. Suas mãos estavam ocupadas. Seu corpo queria ocupar. Corpo nu e o sorvete derramado que penetra à derme. A língua se arrastava nervosamente na nunca e vinha percorrendo desde à ponta da orelha ao contorno dos mamilos até pode chegar à cavidade dos membros que se abriam...
Da preliminar à intimidade... Da carne trêmula à deslocação... Despidos estávamos. Entre uivos e gemidos histéricos repetia-se simultaneamente o ritmo regular da dança dos corpos...Por um momento, seu corpo estremeceu agitado e caiu sobre a cama. Corpo lânguido, espesso, fronte suada...assim veio pousar à cabeça em meu ventre sem dizer uma palavra. Tornou a suceder outras vezes esses instantes... Ato após ato, eu me aninhava em seu peito prometendo esquecer o mundo que continuava lá fora.
Por vezes, nossos encontros se tornaram atrativos. Visitamos às exposições de Debret e restaurantes de pratos requintados da cozinha alemã. Passeávamos de bonde em Santa Tereza. Andávamos de mãos dadas, feito dois namorados pela Chácara do Céu para contemplarmos a melhor vista do Rio de Janeiro. Mas e o vinho que não tomamos? No restaurante, ele assinou um cartão dizendo assim:

Lembrança do dia em que não tomamos vinho.
Ass: R.K.

E o brinde não foi adiado. Na outra ocasião, brindávamos ao sentimento que nos unia e as verdades que não tínhamos. Ele apanhou à rolha do vinho e uma caneta de bolso, gravou na rolha a seguinte mensagem: In vino veritas.
No vinho está a verdade! A embriaguez soltaria a língua e faria as verdades virem? Nem por tanto tempo senti as verdades que julgava descobrir. Ele me dizia ao final de nossos encontros:
_Lembra.
E na primeira vez que ouvi perguntei:
_Lembra de quê?
Ele respondeu:
_ De lembrar. Erinnst.

***
Passado alguns dias, recebi um cartão postal pelos correios que me dizia assim:

Parti apressadamente para Alemanha,
na condição de cumprir o doutorado.
Quis evitar despedidas.
R.K.

Nada soube dele neste período e devia regressar a Universidade. E quando? Eu me angustiava de leve impressão dele...o vento que passou por mim. Tenho cá, minhas dúvidas. Era quase amor. Sei que me foi uma travessura, uma traquinice dessas que a gente faz escondido e com gosto.
Não, não parei de lembrar. Seu telefone não me dava sinal. Aprendi a chorar quieta e de luz apagada, sentir no rosto às lágrimas que rolavam quentes. O cartão postal, eu passei a não ler mais. Todas às vezes que o fazia, me vinha o mal estar. Talvez quem me lê lance suas pequenas desconfianças...
Segui de férias. Espaço de tempo que vigorou pouco, logo retornei. E não demorou muito para poder obter notícias de meu professor. Fui ao departamento saber a respeito dele e foi aí que me contaram.
_ Bom dia! Por favor, me ajude! Precisava falar com o professor de filosofia. Quando ele vem dar aula?
_ A senhorita é aluna?
_Sim.
_Ele foi para Alemanha terminar o doutorado. Viveu no país durante esse período, mas ocorreu uma fatalidade. Ainda não sabemos quem vai substituir na disciplina.
_O que aconteceu? Me diga!? O que houve com o professor? Eu insisto!
_Não podemos dar informações a respeito disso ainda. Por que está tão aflita?
_É que por Deus, ele não é só meu professor é também meu... amigo e...é isso, estou preocupada. A senhora disse que ocorreu uma fatalidade? Por favor, não me esconda!
_ É melhor se sentar, por favor.
_Diga-me o que houve?
_ Ele faleceu. Foi assassinado com dois tiros no peito por um grupo de extrema direita adepto à xenofobia, o preconceito ao estrangeiro. Eles o atacaram na saída de uma livraria.
Tentei me levantar da cadeira foi quando a vista escureceu. Cai desmaiada.
Tive a perda passageira dos sentidos, mas fui socorrida na Universidade. Acordei em um quarto de hospital parecia que eu tinha levado umas pancadas. O corpo me doía todo, eu queimava de febre altíssima. Mamãe veio tomar conta de mim porque eu estava delirante demais por conta da febre. Disse minha mãe que naquela noite, eu saculejava na cama abatida e repetia de maneira confusa umas palavras.
Balbuciava seguidamente quase uns versos assim: "Mil dores físicas do que a dor de um amor perdido".

***
Levei uns dias de recuperação. Quando retornei para casa, mais um cartão postal me aguardava da Alemanha. Eu abri, porém antes, vi no envelope uma mensagem dos correios esclarecendo que houve atrasado de entrega, devido ao período de greve. Abri e ali estava uma mensagem de meu professor, a última que eu receberia e dizia assim:

Não! Não estou escrevendo para justificar. E nem para citar frases de Ovídio (A arte de amar).
Escrevo-lhe com a audácia de um amante que teima em lembrar.Volto essa semana para podermos tomar o nosso vinho. Quero o meu abrigo, aqui faz tanto frio!
Parti. Parte de mim fica em ti. Parte de ti fica em mim.
Lembra. Erinnst.
R.K.

Ele tinha mesmo a razão ao escrever umas palavras. Parte dele ficou em mim... não foi somente a gestação de uns versos ou coisa que valha. Quando fazíamos amor e depois eu chegava em casa, ainda ficava empreguinada dele...minha pele exalava seu cheiro. Mas não é bem isso que eu ia dizer. O que eu ia dizer é que parte dele ficou em mim sim. Quando tomei alta do hospital me veio a revelação e era mais que uma boa nova. Estou grávida. Grávida? Grávida! Ohh... grávida!! O mundo me dizia. Um fruto maturando em meu ventre...Sim.
Eu não deixei de lembrar. Erinnst.

Ps: Início em 28/11/08, término 15/05/09. Ainda sujeito a alterações.

TODOS OS DIREITOS RESERVADOS AO AUTOR.