11 de mar. de 2010

A Maldição da Lojinha Holística ou Pierrot e o azarado

Eu acho que foi através dos jornais que cheguei ao escritório de Pierrot. Só não sei precisar se foi pela matéria na coluna de ciências ou nos classificados que trazem a pessoa amada em três dias, num quadro espremido estrategicamente entre as diferentes ofertas de materiais para escritório, massagens sueco-tailandesas e sexo fantástico e discreto com quase mulheres.

Você sabe como é, a memória anda de braço dado com a vergonha e nos esconde os momentos inglórios descaradamente. Logo, peço antecipadamente minhas desculpas, pois vou tentar descrever essa minha quase-memória como uma confissão, sem poupá-los dos detalhes ridículos que gostaria de esquecer.

Sempre fui um solitário cético e recluso. Viveria tranqüilamente indo de casa para o trabalho religiosamente sem buscar qualquer distração que me forçasse a sair de minha toca ou me afastasse de minhas coleções de livros.

Mas havia Lígia em minha vida.

Somente Lígia conseguia me arrastar para rua e me pôr em contato com outros seres humanos, contra minha vontade na maioria das vezes.

Ela era solar e mística, adorava dançar, conversar nos bares e perseguir uma resposta existencial. Eu era totalmente o oposto mas, hipnotizado pelo amor, fazia tudo que ela me pedia, tudo mesmo, sem reclamar ou demonstrar mau humor.

Mas ela sabia do que eu não gostava. E sempre arranjava uma forma de me criticar ou de expor minha "cárie cínica", minha total falta de fé.

23 de fev. de 2010

O retorno das coisas que se jogam no mar ou O Pierrot e a Ressaca


Leme pela manhã ainda estava vazia, mesmo com um sol escaldante...

Várias aves de rapina de vários nomes e tamanhos... Brancas, pretas e malhadas davam rasantes malabaristicos na beira da praia do leme, mas não ousavam, estranhamente, sequer pousar. Algumas em um mergulho kamikaze. As aves pareciam enjoadas e caiam na areia quando tentavam penetrar por entre um estranho escudo invisível que encobria o céu, castigando o mar com uma mancha negra, na verdade um dégradé de marrom escuro para um petróleo viscose que poderia se chamar de negro.

Um corpo a boiar no meio de uma praia vazia, o que todos esperavam inusitadamente por uma bóia, uma pedra ou até mesmo uma cachalote, ali não estava. Era um enorme, desfigurado e branco corpo. Gordo. E não era apenas pelo inchaço natural de um afogamento, era uma criatura gorda e desfigurada, de tal forma que não se podia determinar o sexo, já que um homem gordo tem seios tão grandes quanto os de uma mulher, mas os espaços que definiam o sexo do corpo estavam estranhamente mutilados – “Quem seria o corajoso peixe, se nem mesmo o urubu sobrevoa essa carniça?” – Pensou um dos bombeiros. O corpo era muito gordo, branco, fétido e assexuado. Uma contramão ou um sinal de pare era o que as pessoas esperavam ali, mas não há sinais de pare para na praia. Todos vão e se embrenham no mar mesmo. Dão aquela corrida para o salto milanesa na areia ou dão aquela corrida para água, mas até mesmo durante o percurso de uma carreira bem dada, há metros antes de se chegar a atrocidade e ao mergulho mau educado, o cheiro parava qualquer tipo de falta de educação de qualquer banhista abusado mas lá havia um corpo. Morto. Podre. Esperando uma fogueira, mas não havia fogueira na beira da praia e nem braços corajosos para carregar a inconveniente pedra que ali estava. A areia, o mal cheiro insuportável, a textura insuportável dos gases mal cheirosos que saiam dali, davam enjoou a qualquer bombeiro sequelado de várias e várias carniças... Muitos corajosos tentavam abraçar o corpo, mas ao menor contato com a pele, o corajoso se mijava todo e vomitava pra tudo quanto é lado. Aquela textura pegajosa, suada de um liquido negro, mesmo ao mais forte, só de sentir a pele morte e podre, já fazia qualquer um se esvair em vômito. Na praia, muitos maldiziam a sua existência e não compreendiam como “aquele Satanás enorme” havia ido parar na beira d’água espalhando a caatinga até Ipanema. Os homens que estavam a fazer Cooper na beira d’água saíram por uma estranha tangente.

O cheiro apodrecia até mesmo a onda, que ao se chocar com o corpo, levantava um spray cinza, espirrando em qualquer curioso que tentasse descobrir ou xeretar alguma coisa da natureza do corpo ou porco...

O dia esquentou. A tarde ardeu. E a noite apenas esfriou um pouco...

Um agrupamento de pessoas se formava em frente a uma banca, que mostrava as novidades que aconteciam sobre o estranho caso, que passava agora no Jornal Nacional.

“E agora, hotéis beira mar estavam sendo esvaziados em massa, daquilo que se chamou uma “catástrofe” sem medidas ou explicações. As pessoas e até mesmo os repórteres estavam sendo proibidos de tratar o assunto como “o corpo”, já que uma névoa já empesteava leme, Copacabana e Ipanema. Nevoa formada pelo “spray” que a onda fazia ao se chocar com “o objeto” que estava a beira d’ água... Um cordão de isolamento fechou toda a linha das calçadas na extensão de Copacabana até o Leblon, já que a língua negra formada pelo objeto se espalhara por toda orla...”

- Esse idiotas, não sabem que outras coisas irão voltar do mar – Resmungou uma mendiga sentada olhando o noticiário defronte a uma banca de jornal, ao lado estava um homem, não era apenas um homem, mas um curioso assistente e pesquisador, para ser mais específico o primeiro detetive de coisas sobrenaturais do Brasil, que recentemente abrira um escritório-prostibulo, com uma placa com o olho que tudo vê no meio da bandeira brasileira dizia que era do “discipulado Crowleyano”, que jogava cartas e previa o futuro. No jornal dizia que foi “um dos consultores a terminar com o mistério do triângulo das bermudas e que participou de exorcismos e dos rituais anti-poltergeistianos que limparam Amythville”. Seu escritório ficava no final da prado júnior. Um francês radicalizado brasileiro há pelo menos vinte anos atrás, era ele: Antoine d’u Pierrot, mago bunda-mole, simpatizante do candomblé e o menos importante no meio de toda aquela confusão, que apesar de tudo, ainda era um dos homens mais ingênuos a pisar na logística forense brasileira.

- Com licença senhora... O que a senhora disse? – Perguntou Pierrot a mendiga.

- Eu disse, seu gringo estúpido, que essas pessoas idiotas não sabem de merda nenhuma, eu já sábia há muito tempo que isso iria acontecer, só me disseram quando estaria perto, mas o dia ninguém nunca me precisou...

- Mas como a senhora sabia?

- Os urubus ora! Eles são os moradores mais antigos de Copacabana e o mais sábio deles, o líder, pra ser exata, me disse que o mar estava furioso, e um dia iria voltar com todas as coisas podres que mandaram para ele, até hoje...

Agora, realmente, eu comecei o meu dia, mas como acreditar em uma mendiga quando ela disse que foi um “urubu” que a contou que esse estranho fato aconteceria realmente? Acho que as coisas andam mais inacreditáveis que eu posso fazer ou pensar, então, eu a tomo pelo braço e pergunto onde eu posso encontrar esse tal líder dos urubus, antes que o mar se revolte e mande mais das suas coisas podres de volta... Ainda bem, estava cansado de ficar com a bunda no escritório o dia inteiro sem fazer nada...