23 de fev de 2010

O retorno das coisas que se jogam no mar ou O Pierrot e a Ressaca


Leme pela manhã ainda estava vazia, mesmo com um sol escaldante...

Várias aves de rapina de vários nomes e tamanhos... Brancas, pretas e malhadas davam rasantes malabaristicos na beira da praia do leme, mas não ousavam, estranhamente, sequer pousar. Algumas em um mergulho kamikaze. As aves pareciam enjoadas e caiam na areia quando tentavam penetrar por entre um estranho escudo invisível que encobria o céu, castigando o mar com uma mancha negra, na verdade um dégradé de marrom escuro para um petróleo viscose que poderia se chamar de negro.

Um corpo a boiar no meio de uma praia vazia, o que todos esperavam inusitadamente por uma bóia, uma pedra ou até mesmo uma cachalote, ali não estava. Era um enorme, desfigurado e branco corpo. Gordo. E não era apenas pelo inchaço natural de um afogamento, era uma criatura gorda e desfigurada, de tal forma que não se podia determinar o sexo, já que um homem gordo tem seios tão grandes quanto os de uma mulher, mas os espaços que definiam o sexo do corpo estavam estranhamente mutilados – “Quem seria o corajoso peixe, se nem mesmo o urubu sobrevoa essa carniça?” – Pensou um dos bombeiros. O corpo era muito gordo, branco, fétido e assexuado. Uma contramão ou um sinal de pare era o que as pessoas esperavam ali, mas não há sinais de pare para na praia. Todos vão e se embrenham no mar mesmo. Dão aquela corrida para o salto milanesa na areia ou dão aquela corrida para água, mas até mesmo durante o percurso de uma carreira bem dada, há metros antes de se chegar a atrocidade e ao mergulho mau educado, o cheiro parava qualquer tipo de falta de educação de qualquer banhista abusado mas lá havia um corpo. Morto. Podre. Esperando uma fogueira, mas não havia fogueira na beira da praia e nem braços corajosos para carregar a inconveniente pedra que ali estava. A areia, o mal cheiro insuportável, a textura insuportável dos gases mal cheirosos que saiam dali, davam enjoou a qualquer bombeiro sequelado de várias e várias carniças... Muitos corajosos tentavam abraçar o corpo, mas ao menor contato com a pele, o corajoso se mijava todo e vomitava pra tudo quanto é lado. Aquela textura pegajosa, suada de um liquido negro, mesmo ao mais forte, só de sentir a pele morte e podre, já fazia qualquer um se esvair em vômito. Na praia, muitos maldiziam a sua existência e não compreendiam como “aquele Satanás enorme” havia ido parar na beira d’água espalhando a caatinga até Ipanema. Os homens que estavam a fazer Cooper na beira d’água saíram por uma estranha tangente.

O cheiro apodrecia até mesmo a onda, que ao se chocar com o corpo, levantava um spray cinza, espirrando em qualquer curioso que tentasse descobrir ou xeretar alguma coisa da natureza do corpo ou porco...

O dia esquentou. A tarde ardeu. E a noite apenas esfriou um pouco...

Um agrupamento de pessoas se formava em frente a uma banca, que mostrava as novidades que aconteciam sobre o estranho caso, que passava agora no Jornal Nacional.

“E agora, hotéis beira mar estavam sendo esvaziados em massa, daquilo que se chamou uma “catástrofe” sem medidas ou explicações. As pessoas e até mesmo os repórteres estavam sendo proibidos de tratar o assunto como “o corpo”, já que uma névoa já empesteava leme, Copacabana e Ipanema. Nevoa formada pelo “spray” que a onda fazia ao se chocar com “o objeto” que estava a beira d’ água... Um cordão de isolamento fechou toda a linha das calçadas na extensão de Copacabana até o Leblon, já que a língua negra formada pelo objeto se espalhara por toda orla...”

- Esse idiotas, não sabem que outras coisas irão voltar do mar – Resmungou uma mendiga sentada olhando o noticiário defronte a uma banca de jornal, ao lado estava um homem, não era apenas um homem, mas um curioso assistente e pesquisador, para ser mais específico o primeiro detetive de coisas sobrenaturais do Brasil, que recentemente abrira um escritório-prostibulo, com uma placa com o olho que tudo vê no meio da bandeira brasileira dizia que era do “discipulado Crowleyano”, que jogava cartas e previa o futuro. No jornal dizia que foi “um dos consultores a terminar com o mistério do triângulo das bermudas e que participou de exorcismos e dos rituais anti-poltergeistianos que limparam Amythville”. Seu escritório ficava no final da prado júnior. Um francês radicalizado brasileiro há pelo menos vinte anos atrás, era ele: Antoine d’u Pierrot, mago bunda-mole, simpatizante do candomblé e o menos importante no meio de toda aquela confusão, que apesar de tudo, ainda era um dos homens mais ingênuos a pisar na logística forense brasileira.

- Com licença senhora... O que a senhora disse? – Perguntou Pierrot a mendiga.

- Eu disse, seu gringo estúpido, que essas pessoas idiotas não sabem de merda nenhuma, eu já sábia há muito tempo que isso iria acontecer, só me disseram quando estaria perto, mas o dia ninguém nunca me precisou...

- Mas como a senhora sabia?

- Os urubus ora! Eles são os moradores mais antigos de Copacabana e o mais sábio deles, o líder, pra ser exata, me disse que o mar estava furioso, e um dia iria voltar com todas as coisas podres que mandaram para ele, até hoje...

Agora, realmente, eu comecei o meu dia, mas como acreditar em uma mendiga quando ela disse que foi um “urubu” que a contou que esse estranho fato aconteceria realmente? Acho que as coisas andam mais inacreditáveis que eu posso fazer ou pensar, então, eu a tomo pelo braço e pergunto onde eu posso encontrar esse tal líder dos urubus, antes que o mar se revolte e mande mais das suas coisas podres de volta... Ainda bem, estava cansado de ficar com a bunda no escritório o dia inteiro sem fazer nada...

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