16 de fev de 2015

Tá Ruço, mano



- Aqui quem fala é a voz do povo e do consumidor, ídolo televisivo paulista e notório defensor dos consumidores.

- Pois não, Vossa Alteza!

- É verdade que vocês negaram crédito a Dona Elza, uma octagenária que só queria fazer o cartão deste pequeno Supermercado que não anuncia na emissora em que eu trabalho? Não pode, amigo, Dona Elza tem que ter cartão de crédito.

- O crédito foi negado por vários motivos, ilustríssimo. E como vossa onipotência é advogado mesmo sem ter passado no exame da ordem sabe que eu não posso explanar pra todo mundo pela tevê que a coroa ganha pouco e a filha dela já pôs o nome da velha no Serasa, no SPC e, se bobear, até na macumba da mulher do padeiro. Mas, só pra constar, quem faz a análise não é o supermercado mas o banco X ao qual o "nosso" cartão está vinculado.

- Ah, meu amigo, contra banco eu não tenho culhão de brigar não. Vou botar é na sua rabeta mesmo que deu mole de atender o telefone. Estamos transmitindo para todo Brasil e seu nome já está na boca do sapo. É um programa muito merda mas tem audiência e eu retransmito essa porra no meu site como reality sadic show. Vou aí com a polícia para lhe prender.

- Mas, senhor deputado, eu não cometi crime nenhum e, caso tenha cometido, basta a sua palavra para me condenar?

- Qualquer cidadão pode dar voz de prisão, artigo 301 do código penal brasileiro. E, além do mais, eu sou deputado.

- Curioso, quem terá que decidir se eu cometi crime ou não é o ministério público e, para isso, terá que seguir um rito processual. É claro que ir à delegacia para alguém que está trabalhando é sempre constrangedor e atrapalha pra cacete a nossa vida.
O artigo 138 me faculta a possibilidade de processá-lo por calúnia e, haja vista a forma desrespeitosa com que o senhor divulgou a nossa ligação, por difamação, artigo 139. Com habilidade, poderia até enquadrá-lo no artigo 146 por constrangimento ilegal mas seria melhor apelar para Lei de Abuso de Autoridade número 4898/65.
Mas, como eu não sou otário, não esqueci que o senhor é deputado e que esse seu suposto comportamento de justiceiro é tão falso quanto o cumprimento das leis neste país. Ou seja, percebi que me fudi nessa e vou pedir ao banco X para dar crédito para coroa se endividar mais ainda com o seu salário de merda. Afinal de contas, esse salário nunca poderá evoluir graças aos governantes que colocamos para defender nossos interesses básicos, não é mesmo?

- É assim que eu gosto, amigo, é assim que o povo paulista gosta e é assim que vai ser. E, como está bom para ambas as partes e melhor pra mim, é claro, nos despedimos dos eleitores acéfalos que sequer entendem o que realmente se passa aqui e que me dão mais votos a cada ano que passa.
Que entrem os comerciais...

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